Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Quinta-feira, Setembro 29, 2005
UM ESTRANGEIRO NA LEGIÃO
Roberto Piva
ISBN: 8525040339
Editora: GLOBO
Número de páginas: 200
Encadernação: Brochura
Lançamento: 29/09/2005
SINOPSE:
O livro enfeixa a produção inicial de Piva, compreendendo seus dois primeiros livros - Paranóia, de 1963, e Piazzas, de 1964, ano do golpe militar -, o poema Ode a Fernando Pessoa, publicado em 1961 sob a forma de plaquete e jamais recolhido em livro desde então, e os Primeiros manifestos. Como destaca o organizador dessas obras reunidas, o crítico Alcir Pécora, o traço predominante nos poemas desse período seria dado pelo viés blasfematório (em diálogo com autores como Whitman e Pessoa, e com a literatura beat), ao que se seguiria uma etapa psicodélica e experimental (característica dos livros que comporão o segundo volume, publicados entre a segunda metade da década de 1970 e o começo dos anos 1980) e um terceiro momento, mais místico e visionário (terceiro volume), que se estende até os dias de hoje. Um estrangeiro na legião contém ainda longo e elucidativo posfácio escrito pelo poeta e crítico Cláudio Willer - companheiro de geração de Roberto Piva - e uma boa bibliografia ao final, extremamente úteis para o leitor ávido por mais informações sobre uma das vozes mais importantes no panorama da poesia brasileira contemporânea.
Fonte: www.siciliano.com.br
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:50 PM Comments:
Domingo, Setembro 25, 2005
QUATRO POEMAS PIVIANOS
I
As mãos invisíveis dedilham a canção sinistra
vibrando as fibras nervosas da medula
Os dentes mastigam o sem fim de peripaques nostálgicos
enquanto o mistério corre pela rua em chamas.
Aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai,
enquanto distraído sonha um mundo de estrelas?
Já não há céu, nem solo firme. Silencie-me! Silencie-me!
Sigo as labaredas memoráveis dos dias de luto e melancolia.
Quero a forma perfeita, o beijo, o cheiro do Apolo ruivo.
Sei da impossibilidade das horas, da complementaridade ilusória.
Olho o monte de esterco apodrecendo na vidraça entreaberta.
Janelas, penhascos, arranhásseis e corpos voadores de pedra.
Se a noite persegue minha vida, deposito monstros no aquário.
Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas.
Minha alma, meu desejo, minha imobilidade. Apenas eu!
Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas.
Um poema, um segmento refratário. Não sei de mim.
As idéias são espasmos, e as palavras, coisa inútil.
Seria senil e insano se acreditasse no amanhã.
Vivo esse segundo que se arrasta, devorando-me.
II
O estrangeiro da legião de insetos
arrancou o grito de cólera e loucura
da boca arreganhada, não percebida,
do paranóico que mora nos ciclones
A bailarina, uma mulher pálida,
engole o último pedaço de vidro
arrebentado com a explosão atômica
de meus sonhos avulsos transtornados.
O erotismo atrapalhado do anão
que não mais se agüenta neste intervalo
de memórias e areias, noite e chamas.
Diminuindo cada vez mais, bactéria.
O uivo caminhando sobre a ponte imóvel.
O castelo e o muro dedilhados no quadro azul.
Sinto a introdução e o posfácio deste rio
que golpeia as paredes com mãos nuas.
O mínimo. O minúsculo. O quase nada.
Dedilhai as últimas notas vagas
que recordam a imagem deformada
do psicótico que caminha sobre o fio dental.
III
O corvo de pelúcia esfaqueado pelas costas
traz os olhos esbugalhados mirando a parede alada.
As estantes, as páginas comidas por traças,
adormecem na noite de meus surtos compulsivos.
Olhos imensos de um desenho de carvão negro
mãos em garras batendo teclas ideais.
O cheiro de perfume velho e asfixiante.
A teia de aranha presa entre os ossos mortos.
Lá fora, homens dirigem seus carros vagarosamente
seguindo as pernas nuas das mulheres prostitutas.
Enquanto corpos se misturam na madrugada convulsiva
de salões apertados, iluminados por rosas ensangüentadas.
Meus passos, meus ruídos, aquele rosto assimétrico.
Triunfa a idéia do parto cesariano sem anestesia.
A dançarina com suas vestes invisíveis
caminha no jardim de lâminas e gafanhotos.
Escreverei dez mil poemas ao poeta necropolitano
sem esperanças de ter meus sonhos confundidos
com o delírio e o êxtase do pai xamânico.
Sou urbano, sou quase cético. Morfina e sonhos.
IV
Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.
Não sei controlar meus impulsos demoníacos.
Não acredito em forças de outro mundo.
Sou eu, meus versos e o perigo das frações.
Arranco minhas víceras poéticas do ostracismo.
Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.
O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.
O sangue e os olhos transformados em areia cinza.
A árvore sem galhos escondem os meninos saltimbancos.
Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas.
Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados,
enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo.
Minha maquiagem, os primeiros tombos das gaivotas.
Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.
A torre delirante de um neocórtex em latência,
ou o pedúnculo, ou o miocárdio, ou o octocentésimo.
Quatro poemas nos espaços angustiados do processo.
Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?!
As idéias me levam ao eterno estado de castidade
entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro.
Luiz Fernando Calaça de Sá Júinior
25/09/2005
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:32 PM Comments:
A Editora Globo lança, no fim do mês, o primeiro volume das obras completas de Roberto Piva, Um Estrangeiro na Legião. O poeta que leva a pecha de marginal maldito afirma, em entrevista, que não faz mais poesia com ''os restos da orgia'', e sim com ''o êxtase xamânico''
Jotabê Medeiros
da Agência Estado
Roberto Piva: influência dos beatniks
[19 Setembro 01h51min 2005]
O poeta gosta de caminhar descalço pelos morros de Jarinu, no interior de São Paulo, observando pássaros e outros bichos. Crê no xamanismo e nos estados alterados da consciência e gosta de John Coltrane, Miles Davis e Monk, mas também de Red Hot Chili Peppers. O poeta é ácido, sarcástico, e define-se como anarco-monarquista. ''O marxismo, para quem gosta de natureza-morta, é um prato cheio'', diz ele.
O poeta é o paulistano Roberto Piva, de 68 anos, um dos mais importantes autores contemporâneos do País. Ele está em vias de ter sua obra completa reunida por uma mesma editora, um feito para qualquer poeta - e ainda mais para Piva, cuja reputação de marginal maldito é antiga. A Editora Globo lança, no dia 29, o primeiro dos três volumes com as obras de Piva, Um Estrangeiro na Legião (200 págs, R$ 38), que reúne 'Ode a Fernando Pessoa', 'Paranóia', 'Piazzas' e 'Os Primeiros Manifestos'. O segundo volume, Mala na Mão & Asas Pretas, virá no final do ano, reunindo 'Abra os Olhos & Diga Ah!', 'Coxas', '20 Poemas com Brócolis', 'Quizumba' e 'Segundos Manifestos'. Por fim, sairá Estranhos Sinais de Saturno, volume formado por um inédito, e Ciclones.
Ninguém foi mais rápido no gatilho do que Roberto Piva: no início dos anos 60, ele escreveu 'Paranóia', um dos retratos poéticos definitivos da metrópole paulistana que emergia e de sua paisagem de morfina, seus arranha-céus de carniça, seus arcanjos de enxofre. A 'Action Surréaliste' destacou sua ''fascinação pelos neóns e a alucinação pela metrópole metálica''.
Ele continua vivendo no coração dessa metrópole que odeia e venera, num apartamento em Santa Cecília. Ignora a Internet e os computadores. Ali, soterrado por livros, recebe discípulos, curiosos e até mitômanos há mais de três décadas sempre com a mesma dedicação, mas já sem tanta paciência. ''A juventude brasileira está sendo preparada pelos professores para viver no século 19'', desabafa.
Sofrendo do mal de Parkinson, Piva trata-se com vitamina B2. O remédio atenua efeitos da doença e impõe certas regras: ele não pode comer carne vermelha. ''Mas há uma bela compensação'' ele festeja. Recomenda-se que ele tome vinho tinto chileno ou francês, cujas uvas contêm bioflavonóides, pigmentos de ação terapêutica. O poeta brinda às ironias da vida.
O organizador e responsável pela edição da obra de Piva é Alcir Pécora, professor de 'Teoria Literária' da Unicamp. Os posfácios são do escritor Cláudio Willer, de Eliane Robert de Moraes e do crítico Davi Arrigucci Jr.
Piva tem um currículo no mínimo excêntrico. Foi um dos primeiros produtores de shows de rock no País - produziu concertos de Made in Brazil e Duda Neves, por exemplo. Sua poesia funda-se, além de uma invejável erudição, na relação com o metafísico e o sagrado. ''Sob o império ardente de vida do princípio do prazer, o homem, tal como na Grécia dionisíaca, deixará de ser artista para ser obra de arte'', ele proclama.
Piva cultua seus orixás (Xangô, Iemanjá e Oxum) e também toca tambor para invocar seu animal xamânico, o gavião. Se você estiver algum dia zanzando pelas estradas da Cantareira e vir um homem caminhando descalço com os sapatos nas mãos, bom, talvez seja o Piva.
Pergunta - ''Faço poesia com os restos da orgia'', você disse numa entrevista à revista 'Coyote'. Ainda é assim que se passa?
Roberto Piva - Isso é datado. Faço poesia hoje com o êxtase xamânico. Em vez da ditadura do proletariado, o século 21 vai se caracterizar pela descoberta das culturas xamânicas. Vamos estudar o culto dos cogumelos na Europa, o peyote dos mexicanos.
P - Os estados alterados da consciência ainda são essenciais para a poesia?
Piva - Na minha opinião, sim. Mas os estados alterados da consciência podem ser atingidos de diversas maneiras. Você pode entrar em êxtase admirando a paisagem, ouvindo um pássaro, caminhando pela estrada, deitado na grama olhando o céu, com peyote.
P - Por que você se define como anarco-monarquista?
Piva - Monarquia é aquele regime que, por hierarquizar demais a cúpula, acaba permitindo uma maior anarquia das bases. Com aquele monte de duques, condessas, viscondes, nobres de toda espécie, esquecem de querer regular o povo.
P - Como vê a atual crise política?
Piva - Nunca votei no PT, acho que é um caudatário do totalitarismo de Fidel Castro. Eles são cúmplices da criminalidade castrista. Sempre achei o marxismo, para quem gosta de natureza-morta, um prato cheio. Adverti que estávamos lidando com uma quadrilha leninista. Para os jovens do futuro, a melhor definição do governo Lula é esta: foi um atentado à democracia e à gramática. Foi boa a queda, é o nosso Muro de Berlim caindo, com algum atraso. Agora só pode pintar uma outra coisa. Como na Itália. O Partido Socialista, de Bettino Craxi, afundou na corrupção, mas a Itália está lá, inteira.
P - Há uma alternativa à política?
Piva - Allen Ginsberg dizia: ''Os governos futuros, é nos meus poemas que eles existem. E na morte de Maiakovski e de Hart Crane''.
P - Você foi muito influenciado pelos beatniks, não?
Piva - Sim, pelos beatniks, pelo surrealismo, William Blake, Rimbaud. Eu faço uma poesia magmática, em cujo magma mergulho todas as influências. Sofri impacto também de Dante Alighieri. No final dos anos 50, fiz um curso na 7 de Abril sobre Dante com Eduardo Bizzarri, que foi adido cultural da Itália em São Paulo e traduziu Guimarães Rosa para o italiano. Foi um ano para o Inferno, outro ano para o Purgatório e outro para o Paraíso.
P - Entre os poetas atuais, quais são realmente bons?
Piva - Não vou responder essa, por um motivo simples: tenho a memória avariada por causa do Parkinson. Mas você lembra perfeitamente de tudo. Não vou eleger um ou outro poeta, os que ficarem de fora não vão gostar.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 6:52 PM Comments:
Sábado, Setembro 24, 2005
OBRAS REUNIDAS DE ROBERTO PIVA
Dia 29 de setembro, quinta-feira, a partir das 19 h.,
lançamento do vol. 1 de Obras Reunidas de Roberto Piva,
"Um Estrangeiro na Legião", publicação da Ed. Globo.
O posfácio é de Claudio Willer.
A noite de autógrafos será no Espaço Unibanco de Cinema, Rua Augusta 1475, SP.
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 7:33 PM Comments:
"Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã, enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
Tu, todas as crianças vivazes e sonolentas,
Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o professor não vê;
Tu, o Ampliado, o latitude-longitude, Portugal África Brasil Angola Lisboa São Paulo e o resto do mundo,
Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima, de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche
Tu, o rumor dos planaltos, tumulto do tráfego na hora do rush, repique dos sinos de São Bento, hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá,
Digo em sussurro teus poemas no ouvido do Brasil, adolescente moreno empinando papagaios na América
Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios, escorrendo pelas águas do Amazonas, batendo em chapa na caatinga nordestina, debruçando no Corcovado
Ouçamos a bossa nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda diretamente do coração do morro
Tu, a selvagem inocência nos beijos dos que se amam"
Trecho de ''Ode a Fernando Pessoa'' (1961)
Roberto Piva
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:26 AM Comments: